sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Capítulo 1

    Nunca fiquei tanto tempo olhando para o teto do meu quarto. Sempre que fico triste, choro -lógico, canceriana- e quando choro eu durmo. Sim, eu durmo. Acho que me faz esquecer um pouco o sofrimento. Ah! E também sou dramática.
    Eu não conseguia aceitar o que estava acontecendo. Meu melhor amigo, o Dudu (no qual eu estava estranhamente gostando e não só como o meu melhor amigo) tinha dado um selinho na menina mais chata e insuportável da escolinha -que convenhamos era a mais linda-.
    Ouvia o barulho de longe, da minha mãe batendo na porta. Estava com medo de abrir o olho e toda aquela cena voltar na minha mente , então eu simplesmente ignorei. Mas como a Dona Clarice era muito insistente entrou mesmo assim, me forçando a acordar. O quarto estava totalmente escuro e a luz que entrou do corredor batia no meu rosto e eu pude ver o Fofonho (meu ursinho de pelúcia, no qual eu não conseguia dormir sem) como sempre, caído no chão. O peguei, cobri o meu pé com o meu edredom de fadinhas e voltei a pelo menos tentar dormir.
    Minha mãe deixou algo na escrivaninha, mas fingi que nem percebi. Pude ouvir o som dela ajeitando o tapete, que como sempre estava torto.
   No dia seguinte acordei com a cara inchada e com uma olheira enorme. Mas naquela idade eu só ligava pro que ia ter de café da manhã. Minha mãe sabia que algo tinha acontecido, mas acho que ela achou melhor me deixar. Comi uma bisnaga com nutella e fui pra escola -completamente desanimada, devo ressaltar- estava todo mundo agindo normalmente. Afinal, tínhamos apenas 8 anos, mas pra mim estava tudo um desastre. Minha melhor amiga, a Luana, percebeu que eu não estava bem. E ficou me observando com aqueles olhos verdes e eu fingi que estava tudo bem.
- Você tá bem Lice? – Perguntou franzindo a testa
      Eu nunca sei o que dizer nesses momentos, “Sim, estou bem! Porque?” ou “Não, estou péssima!. Estava nutrindo uma paixão secreta pelo Dudu, nosso melhor amigo. Que ontem, beijou a idiota da Vitória na saída. E eu fiquei muito mal, chorei o dia todo. E agora ele está fingindo que nada aconteceu, ou melhor, todos estão! E eu não queria vir pra escola por causa disso, mas sabia que minha mãe não iria deixar eu faltar. Então estou aqui, completamente acabada. E quero matar aquela chata!. E provavelmente a minha vida acabou aqui e eu nunca mais vou gostar de ninguém!”. Mas preferi ficar com a primeira opção.
- Aham. Porque?- digo, tentando olhar nos olhos dela. Pois ela sempre sabia quando estava mentindo. – Só com um pouco de sono.
- Ah!. É que você tá muito estranha. – Diz mexendo no seu chaveiro da Moranguinho e já muda de assunto. Obrigada Deus!! – Hoje tem aula de Educação Física! Acho que vamos jogar mãe da rua! – Fala gesticulando, e muito, muito animada.
      Eu nunca gostei muito de Educação Física. Não era muito boa nessas coisas. Câncerianas normalmente são “lentinhas” e eu era super!. A única coisa que eu realmente era boa, era queimada e mãe da rua. Eu e a Lu sempre fazíamos planinhos e estratégias fingindo que éramos jogadoras de verdade. Eu gostava da sensação de todo mundo torcendo por mim, gritando meu nome e me elogiando quando acabava o jogo. Sempre fui uma garota que gostava das pessoas gostarem de mim. Deu pra entender?. Eu sempre me senti na missão de conversar com aquelas pessoinhas que ficam escondidas na sala, que não tem amigos e passam o intervalo sozinhas. Então na época de escolinha, eu era amiga de todo mundo. Mas a Lu e o Dudu eram diferentes pra mim. Eram mais especiais, sabe?

     Depois disso tudo, eu mudei muito.

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