Nunca fiquei tanto tempo olhando para o teto do meu quarto.
Sempre que fico triste, choro -lógico, canceriana- e quando choro eu durmo.
Sim, eu durmo. Acho que me faz esquecer um pouco o sofrimento. Ah! E também sou
dramática.
Eu não conseguia
aceitar o que estava acontecendo. Meu melhor amigo, o Dudu (no qual eu estava estranhamente gostando e não só como o
meu melhor amigo) tinha dado um selinho na menina mais chata e insuportável da
escolinha -que convenhamos era a mais linda-.
Ouvia o barulho de
longe, da minha mãe batendo na porta. Estava com medo de abrir o olho e toda
aquela cena voltar na minha mente , então eu simplesmente ignorei. Mas como a
Dona Clarice era muito insistente entrou mesmo assim, me forçando a acordar. O
quarto estava totalmente escuro e a luz que entrou do corredor batia no meu
rosto e eu pude ver o Fofonho (meu ursinho de pelúcia, no qual eu não conseguia
dormir sem) como sempre, caído no chão. O peguei, cobri o meu pé com o meu
edredom de fadinhas e voltei a pelo menos tentar dormir.
Minha mãe deixou
algo na escrivaninha, mas fingi que nem percebi. Pude ouvir o som dela
ajeitando o tapete, que como sempre estava torto.
No dia seguinte
acordei com a cara inchada e com uma olheira enorme. Mas naquela idade eu só
ligava pro que ia ter de café da manhã. Minha mãe sabia que algo tinha
acontecido, mas acho que ela achou melhor me deixar. Comi uma bisnaga com
nutella e fui pra escola -completamente desanimada, devo ressaltar- estava todo
mundo agindo normalmente. Afinal, tínhamos apenas 8 anos, mas pra mim estava
tudo um desastre. Minha melhor amiga, a Luana, percebeu que eu não estava bem.
E ficou me observando com aqueles olhos verdes e eu fingi que estava tudo bem.
- Você tá bem Lice? – Perguntou franzindo a testa
Eu nunca sei o
que dizer nesses momentos, “Sim, estou bem! Porque?” ou “Não, estou péssima!. Estava nutrindo uma paixão
secreta pelo Dudu, nosso melhor amigo. Que ontem, beijou a idiota da Vitória na
saída. E eu fiquei muito mal, chorei o dia todo. E agora ele está fingindo que
nada aconteceu, ou melhor, todos estão! E eu não queria vir pra escola por
causa disso, mas sabia que minha mãe não iria deixar eu faltar. Então estou
aqui, completamente acabada. E quero matar
aquela chata!. E provavelmente a minha vida acabou aqui e eu nunca mais vou
gostar de ninguém!”. Mas preferi ficar com a primeira opção.
- Aham. Porque?- digo, tentando olhar nos olhos dela. Pois
ela sempre sabia quando estava mentindo. – Só tô com um pouco de sono.
- Ah!. É que você tá muito estranha. – Diz mexendo no seu
chaveiro da Moranguinho e já muda de assunto. Obrigada Deus!! – Hoje tem aula
de Educação Física! Acho que vamos jogar mãe da rua! – Fala gesticulando, e
muito, muito animada.
Eu nunca gostei
muito de Educação Física. Não era muito boa nessas coisas. Câncerianas
normalmente são “lentinhas” e eu era super!. A única coisa que eu realmente era
boa, era queimada e mãe da rua. Eu e a Lu sempre fazíamos planinhos e
estratégias fingindo que éramos jogadoras de verdade. Eu gostava da sensação de
todo mundo torcendo por mim, gritando meu nome e me elogiando quando acabava o
jogo. Sempre fui uma garota que gostava das pessoas gostarem de mim. Deu pra
entender?. Eu sempre me senti na missão de conversar com aquelas pessoinhas que
ficam escondidas na sala, que não tem amigos e passam o intervalo sozinhas.
Então na época de escolinha, eu era amiga de todo mundo. Mas a Lu e o Dudu eram
diferentes pra mim. Eram mais especiais, sabe?
Depois disso tudo,
eu mudei muito.
Nenhum comentário:
Postar um comentário